desnascer e florescer

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visceral

(Para Laís Lapa)

Hoje talvez eu pudesse escrever o verso mais dolorido
[da minh’alma.
Hoje, quando a calma me inunda tamanho é o desespero
[perante a dor que anestesia.
Se nascer dói, vos adianto que morrer um bocadinho por
[dentro estando viva, também.

O balanço é um só: vastidão, solitude.
O vazio irriga minhas veias onde pulsara tanta vida.
E pulsa! sempre pulsará.

Ventre que carrega a vida.
Vida que carrega o ventre, feito o curso de um rio.

Aos desejos da mãe maior: entrega.
Observo o leito que espera
o leite que seca, e as lágrimas que correm.

Na seiva encardida mergulho,
e já de volta a superfície: enfim respiro, e renasço.

Tal qual num parto para dentro: a vida vibra aqui,
e aqui há uma fêmea que ao passo que despetala,
desabrocha ainda mais formosa, firme e plena.

anatomia às avessas

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visceral

Fazer parte de uma história
registrado feito fotografia

Retrato emoldurado
na parede da memória afetiva
Gravado nos devaneios da licença poesia

Paredes dessa casa-ninho
onde só pousam pessoas-passarinhos,
A decretar a leveza de suas asas:

Amor liberto que nada pede e tudo entrega.

Eu não sou uma pessoa que carrega um sentimento.
Eu sou esse sentimento, que, por acaso
E não mais que transitoriamente,
carrega uma pessoa.

Porque o corpo falece; amor floresce

manifesto atemporal

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visceral

Homem, animal insano
E no auge de sua insensatez
Diz que seu tempo não cabe no ano.

Natureza, plena e serena
Vive o mesmo tempo
No mesmo compasso e ritmo
Na mesma dança cósmica
Que o berço do universo,
que a nascente da beleza.

Homem, bicho que vive de artifícios
Inventou o relógio
O calendário e a agenda
Pra assistir com satisfatório sofrimento
Seu tempo morrer de vícios.

O homem cria o tempo pra perder
Quanto mais tempo se tem pra passar
Mais tempo se anseia ter pra matar
E a natureza, moça bonita e sempre florida,
Passa os dias a colorir, perfumar e contemplar.

adormece

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visceral

Chuva, vem me abraçar
Terra doce que espera paciente
Vida que vibra fértil
Ora suspira
Ora revela
Vida que vibra medita calmamente
Atrai a gravidade
derrama as águas
Que as nuvens teimam em carregar
Mostrando a força que só a leveza tem
Nuvem de chumbo?
Nuvem de algodão!

para o que nasce

visceral

Descobristes um desejo azul
num jardim de girassóis
e um caminho de flamboyants sangrentos
que na verdade sempre viveram dentro de ti.

Descobristes um poeta:
(Ernesto, Pablo ou Affonso)
de palavras vivas!
que dependem só de si para vibrarem
num papel amassado
ou num livro de capa dura dourado
que sempre viveram dentro de ti.

Fostes também mulher:
Inês, Íris, Lia, Madalena,
todas elas de canto doce
de doce encanto
fortes tal qual Rosário
livres tal Frida Kahlo,
amantes líricas, Florbela…!
Todas aí, dentro desse sangue
nessas veias
nestes olhos
nesses braços e abraços.

Sempre esteve a sua janela
um pássaro a bater todas as manhãs
e porque não me dizes a que veio, perguntavas…
e o porque, eu vos digo:
porque a resposta sempre morou em ti.
Olhe pra dentro, poeta!
para de esperar
o dia de ser
porque já és poeta a pulsar
porque poeta já nasce imortal, forte,
insano no amor, bravo no viver, e faz do seu ofício sonhar.

Vive a vida de todos os seres que lhe encantam, poeta
todos eles juntos num só ser.
Outras quais, inventas, poeta!
Involuntariamente, incessantemente, porque de outro modo
[o poeta não sabe ser.

habitualmente

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visceral

A mente,
por mais estranho
e incrível
que nos pareça
não nos mente
um só desejo
não nos esconde
uma só lembrança
não nos escapa
um só pensamento
a mente
ironicamente
é a única parcela de nós
que jamais mente
a mente é bicho solto
escondido em paredes de osso
é rio represado no olhar
não mente
nem se deixa enganar

cavalo de tróia

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visceral

Outrora insinuaste ser nocivo à minha paz,
Indignada, discordei.
Eras tu, minha paz.
Hoje proclamo:
És essencial a minha paz,
Mas não quando te fazes presente,
A presença de tua ausência,
Tem sido meu presente de paz.
O liame entre
A paz, ausência e presença,
Sutil se faz.
Do mesmo modo que
Nos perdemos entre o que de fato sentimos
E o que nosso imaginário afetivo e poético
Nos leva a crer que levamos dentro.
A distância entre fantasia e amor carnal,
É a diferença entre a verdade e a mentira,
Depende apenas da ocasião, do interesse e do ponto de vista.

das refutações

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visceral

O que as coisas são
antes das coisas serem coisas,
pra gente?

o que é a gente
antes da gente
ser gente
e supor saber o que é,
Ser gente?

o que são,
e o que é,
as coisas
e as gentes?

o que é que a gente sente
antes de saber o que é
s e n t i r,
s e r,
s a b e r,
c o i s a,
e
g e n t e ?
aspiro ver o mundo com os olhos de
um menino
que nunca foi menino,
que nunca foi semente,
que nunca será gente,
nem agente,
nem coisa.