ao capital

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aprendizagens

Você não sabe nada sobre as tardes que passei deitada em grama verde admirando as nuvens passearem pelo céu vertiginosamente azul. Não sabes o quão sublime é o bailar da copa das árvores na tua ausência. Não sabes o quanto dançam ao sabor do vento. Você nunca vai saber do sal do mar num mergulho durante uma tarde de terça-feira em dezembro, nem saberá a transcendência disso. Você nada sabe sobre receber o sol na pele com beleza e gratidão, você não sabe reconhecer o quanto isso é um privilégio, uma dádiva. Olha, confesso que até admiro a forma honrosa com a qual você afirma não ter tempo pra nada, enquanto acumula dinheiro pra quase tudo. Mas não permito que minha moeda temporal seja o capital. Se tempo é dinheiro, ostentação é admirar a vida com os olhos do deleite.

tdah

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aprendizagens

Fiquei aqui pensando no motivo pelo qual procrastino. Ora, procrastinar me soa um belo e sedutor de um trava língua ao qual eu não resisto. Esse enrolar até o céu da boca, essa palavra feminina que apesar de ser verbo não necessariamente indica ação, podendo ser simplesmente uma inclinação ao não fazer, ao contemplar o belo. A letra de uma música, um chamego na felina que pousa no parapeito da janela, a luz amarelo-âmbar do fim de tarde olindense, a música que o vizinho ouve, o jogo de dominó daquela senhora cujo único divertimento é esse, aquele suco maravilhoso no meio da tarde, um cochilo inesperado, um livro que ficou esquecido na estante, uma crônica pra fugir da formalidade do trabalho, uma mensagem carinhosa pra alguém que se adora e tem saudade, um vídeo do porta dos fundos, uma receita vegana, uma visita inesperada, um telefonema. Ai, que delícia que é procrastinar. Ai que desespero que dá.

segunda-feira de carnaval

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crônicas

Para Victor  Castelo Branco

Dentro daquela casa era só alegria. Confete, serpentina e purpurina já  era a decoração inerente naquele ambiente há mais de um mês onde já se ouvia frevo, maracatu e afoxé desde setembro do ano anterior – afinal, o endereço era: Rua do Amparo, em Olinda.

Sua chegada estava prevista para dali a duas semanas, mas parecia que o menino havia resolvido “queimar a largada”, afinal: “carnaval só acaba quando termina” – e diziam à boca miúda que a quarta-feira de cinzas era um dos melhores dias de folia. Ele naturalmente não queria perder essa oportunidade de estrear na vida bem ali no ventre da melhor festa do ano e no melhor lugar do mundo (e se não for eu cegue).

No alto das sete colinas, os clarins de Momo anunciavam sua chegada: nasceu o menino na segunda-feira de carnaval! Quem faz ideia do que isso significa imagina a bela confusão que foi um parto domiciliar no foco da folia, entre uma contração e outra, uns passos de frevo, muitas tubas e tome mais confete e serpentina em meio a naturais gritos de dor, mas repleto de muitos e muitos sorrisos que só a libertação dos dias de festa da carne pode proporcionar aos seres pagãos desta terra.

Sua mãe vestida de havaiana, seu pai ostentava um tapa-olho de pirata. Aquele lar era naturalmente só alegria, sua chegada era tão esperada que não pudesse haver melhores motivos para comemorar. Chuva, suor e cerveja! Corre pra lá, corre pra cá, olha o boneco gigante! Olha a tesoura! “Que venha com saúde, que chegue em paz, que venha com axé”- diziam. E o menino nasceu com fome de tudo: se alimentando logo de amor, cor, sabor e liberdade.

Em meio a tanta euforia logo lhe puseram uma fantasia de arlequim, pronto: chegado ao mundo preparado pra inaugurar a vida extrauterina, parecia até que veio de sombrinha na mão! Agora há que se perdoar, no meio de tanto acontecimento – carnaval pra Olindense é coisa séria tanto quanto nascimento – ninguém se lembrou de anotar dia e hora do seu surgimento.

Hoje, quando lhe indagam: “moço, qual o dia de seu aniversário?” ele simplesmente responde: “segunda-feira de carnaval”. Mas tudo bem, pois todos os anos ele ganha de presente a maior festa do mundo, com alguns milhões de convidados, algumas centenas de troças bem debaixo de sua janela, um bocado de orquestra de frevo, e certamente: os mais sinceros e queridos abraços de uma efusiva felicidade que não se contextualiza, nem se explica: só vivendo pra ver. Vida a longa ao menino do carnaval!

catarse

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coracional

Com o findar e o raiar dos dias, toda sorte de sentimentos eu transformo em poesia. Dor, ódio, paixão e aversão, tudo tudo eu transmuto em ventania. Brisa leve, beijo doce, rancor e nó no peito, tudo é matéria prima pra virar uma emoção. Vem e me lances assim teu desprezo, não sabes a sorte que tenho ao receber de ti teu adeus. Vai virar letra bordada no papel, vai virar rima ou conto,vai encher o coração de alguém e vai encher algum olhar de calor. Mergulho no que sinto, sou e vou! Sigo e digo com a coragem de um mártir, mas engulo o néctar em cada flor, beijo o amargo em cada dor, sou sinto mostro meu ser por inteiro e pelo avesso. Vou dando a cara a tapa mas assumindo o que sou: poesia. Respiro engulo e tusso mas não me adio nem me engasgo com qualquer coisa que sinta. Vivo e sinto e sou só pra ser matéria prima de poesia. Podes fazer doer, podes negar tuas mãos​, só não podes impedir o sol de engolir o céu assim como não podes segurar o furacão da doce fúria que é devolver o que você me der em poesia. Eu transformei a pedra que me atirastes em flor. Esta minha alquimia é minha paixão e me basta. Bates numa face que eu te exibirei a outra e te aplaudirei. De .

o bolo

crônicas

Ovos de galinha de “capoeira” fresquinhos. Peneira a farinha de trigo com cadenciado bailar de dedos. Uma chuva branca bem fininha deita-se sobre a bacia de bater bolo. Quebra os ovos e com a precisão de um cirurgião, ela separa gemas e claras. Leite, açúcar, frutas e vinho. Tudo no tempo certo e com rigorosa medida.

A melhor hora pra ela é a de começar a bater a massa com a colher de pau enquanto cantarola seu repertório de hinos evangélicos favoritos, assim como numa meditação. O calor na temperatura ideal, tudo muito cuidadosamente executado. De repente, o aroma gostoso toma todos os cômodos da casa para seu deleite, deleitando também suas lembranças mais juvenis.

Qualquer festa de família em qualquer época do ano pra ela é motivo pra bolo de noiva. Solteira, cinquenta e poucos anos, ainda mora com sua mãe. Mesmo sem nunca vestir véu e carregar buquê, era a solteira do bolo de noiva.

Não se sabe se pelo doce, se pela alquimia ou aroma da mistura dos ingredientes. Talvez seja pela imagem do semblante dos seus entes queridos deliciando-se com sua receita quase sagrada. Talvez esses sejam os únicos momentos em que ela se sinta genuinamente especial e única.

Uma vida inteira sem um grande amor, um sonho branco de tranças nos cabelos guardado a sete chaves (tal qual a receita do quitute). A mulher do bolo de noiva nunca casou. Talvez o bolo guarde consigo a esperança de um dia encontrar seu par. Ou talvez seja ela o seu doce par.

 

instante

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coracional
no instante
no exato instante em que a flor desabrocha
a terra já se perdeu da semente pra sempre 
no instante
naquele exato instante em que desemboca em águas salgadas
no sopro de um instante
o mar não mais será rio
no instante
no exato instante em que bate as asas
no mesmo segundo em que repousam as pestanas
o pássaro deixa de ser paisagem pra foto
um passo
e eu já não sou quem fui
um rearranjo
um lapso de sanidade
já não és quem fostes
no instante em que
se troca a fechadura
a porta nunca mais será a mesma
no instante de um suspiro:
morre nasce cresce desencontra ou deságua
um pleno e verdadeiro ódio
um generoso simbiótico livre amor
no instante,
naquele instante exato onde teu olhar pousou.

a chave

crônicas

Pousou a chave prateada delicadamente sobre o móvel de madeira clara, como quem intimamente contempla o seu tilintar adentrando o silencioso apartamento. Tocou com saudoso carinho aquele porta-retratos cuja moldura amarelada insistia em acumular poeira. Avistou brevemente os tímidos sorrisos de outrora que ali havia, questionando-se o quão tarde já estaria partindo.

Ajustou seu pulso as alças das suas malas, neste momento as únicas que caminhariam ao seu lado. Como quem se debruça na beira de um abismo, o jovem senhor de cabelos prateados fecha a porta do apartamento – sem trancá-la.

Após vinte e cinco anos reiterando o ritual, ela abre a porta no mesmo horário que sempre fizera nos últimos tempos. Era preciso correr para cozinha, pois a sopa estava a demandar seu preparo. Banhou-se de modo breve e pôs um delicado vestido de cores neutras e comprimento longo. Debruçou-se sobre a pia da cozinha onde postos já estavam os legumes coloridos, enquanto borbulhas se desenhavam na chaleira sendo o prenúncio de um quente e amargo café. Nesta noite ainda mais amargo café.

Seis e meia no relógio da sala cheia. Cheia de móveis. Repleta de lembranças e de um silêncio ensurdecedor. Um silêncio cheio de vazio e melancolia, mas um vazio que não doía. A mesa posta, a sopa esfria. Ele nunca se atrasara um minuto sequer. Vinte e cinco anos e esfria também sua espinha.

A luz do abajur piscou. Talvez tenha queimado. Ela levanta-se para verificar, e então avista algo brilhando na penumbra, havia algo ali naquele móvel de madeira clara. Eram as chaves. As chaves. Abaixo delas, apenas um bilhete: “deixe-me ir, preciso andar”. Ao lado, aquele vinil de Cartola que ela mesma o havia presenteado em outros tempos, talvez fosse contemporâneo aos tímidos sorrisos do retrato.

Um adeus. Vinte e cinco anos. Uma linha. Uma música. Ele partira para sempre levando tudo que ela conhecia. Partira somente levando seus objetos mais pessoais. Partira deixando as chaves. As chaves que abririam as portas da sua percepção.

 

flor(irei)

coracional

eu gostaria de me despedir me despir desta carne morta que aqui está queria flor só florir te entregar rosas vermelhas sem espinho numa bandeja feito beijo de uma boca quente cheia de dentes brancos e bonitos tal qual mármore granito ou pedra que o valha dentes de te metem a boca com carinho e te trazem pra junto pra perto de verdade onde foi que te perdeste de mim? onde quando nossos caminhos se descruzaram e parece até que vivemos em diferentes realidades onde mesmo perto estamos longe por onde fores eu não sei onde estarei mas florirei irei florir.

fêmea

coracional

toma tua culpa fecunda do ventre que te pariu condição primeira de tua existência. mulher: nasceste sentenciada e condenada ao julgamento num jogo de cartas marcadas que grita na tua cara: culpada. carregas tua culpa e veja bem que agressiva e doce fúria é tua luta pelo simples fato de ser quem és. fêmea, esse sangue derramado essas feridas não curadas esses caminhos tortuosos e os espinhos que te ferem e que te talham a pele neste campo de batalha que é estar sair ou ficar simplesmente sendo quem és: mulher. mostra com orgulho tuas cicatrizes e levanta deste chão pisa com a leveza dos teus pés o rosto do teu algoz que outrora te deita na guilhotina. Fala mais alto que o falo mulher transmuta tua culpa em coragem ergue em riste este punho ferido e grita: livre. (até que todas sejamos).