a fuga e o deleite

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visceral

Ela pensava:
Quem és tu?
De onde vens e pra onde vais?
Quais teus devaneios e desejos?
Como podes me pedir tão pouco
Como ao passo que me desconheces
Podes penetrar tão profundo em meu mundo?

A fuga,
O olhar que se desencontra propositalmente
Os cabelos que emolduram um olhar que se esconde
Pelo receio da descoberta
Da doce descoberta e do despertar
Que imprime uma verdade que nada pede,
Mas que tudo entrega

É noite amarelo-âmbar nas sete colinas
É noite fria e rouge carmim
Mas é a noite que todos os deuses e deusas
se põe ao acaso do encontro
Aflitos, consoladores e não menos sedutores

Sabia que seus olhos falavam
Sabia também que ele lia olhares
E por tal motivo o jogo fugidio e ébrio se fazia
Pois sabia que aquele que lesse seus olhos
Em sua alma penetraria

E por isso fugia
Fugia pois ele lia
E porque o próprio jogo de fuga lhe satisfazia
Pois a revelação seria
Um golpe de faca em si mesma
tornando sua poesia moeda sem valor
sem mistério e sem ardor.

causa e efeito

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visceral

Existo e insisto em querer fazer e ser poesia
Na beira mar da maresia
na linha tênue dos trópicos

Eu existo e não mais do que por insistência,
e por que não dizer por teimosia
inspiro e tusso poesia

Piso leve na areia
que insiste em naufragar meus pés
Piso e insisto em naufragar
Piso e insisto em não ser diferente
pois de outro modo não poderia ser

De modo errante insisto e existo
pois de outro modo apenas sobreviveria
apenso a um corpo de perene fluidez
E com permanente nitidez, revelo:
de que me valeria viver se não fosse pra ser poesia?

Eu que não nasci sem causa
e só por insistência
minha existência de outro modo não seria:
é a de me cobrir com as vestes do mundo,
levantar a bandeira do amor em punho
e resvalar de poesia

Só por insistência existo
E existo não pra fazer,
mas pra sentir e ser poesia.

profanas divindades

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visceral

Só para que eu escreva
e me diga aqui muito honrosamente poeta
um mundo ao meu redor se move

Só para que eu tenha a ousadia de escrever
e ainda mais ousada seja em chamar de poesia
um véu luminoso de beleza se estira sobre o caos

Só pra que eu possa me ressignificar poeta
me pus a mistificar incongruências
no fluxo da contramão
e a contemplar divindades urbanas

Exclusivamente para que eu me ponha poeta
paixões a mim foram designadas
só para o voluptuoso deleite da rima e da métrica,
e sobretudo da ausência delas

Só para que eu, pretensiosamente me diga poeta
madrugadas ébrias me foram desenhadas
doces matérias primas para que algumas palavras
possam deitar-se libidinosamente sobre o papel.

suave coisa nenhuma

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visceral

Quantos copos
Quantos corpos
Nesta mesa repousaram?

Quantas dores
Dissabores
e amenidades
Transitaram?

Futebol
Política
Religião
Ou a dor jubilosa de uma paixão?

Sangria, desejo
Aguardente, ou não
Suor: o manto volátil do prazer
E o gozo: a redenção do tesão

Quantos corpos
Quantos copos
Nesta mesa repousaram?

Quantos dela se apossaram
e fizeram seus leitos
de febris de devaneios
Onde realidades mornas se findaram?

súbita desordem e caos

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visceral

Um frio e o plástico gosto de sangue que escorre pela garganta
O mundo ao redor é o mesmo,
mas aqui dentro, aqui dentro esse ruído ressoa e não estanca.

O mundo ao redor é o mesmo,
mas o súbito mudo de dois segundos
cuja rota fora alterada por destino ou ocasião
se perpetuará além do que há e sobretudo daquilo que nunca
jamais
será

translúcida

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visceral

Quanto mais me despedaço
despetalo
mais floresço.

Quanto mais me desperdiço
me recrio e reinvento
[toda vez que eu me perco além de margens retilíneas das
possibilidades prováveis
é quando acabo me achando dentro do fundo da íris de um
olhar alheio além mar.]

Copo vazio cheio de ar
transpareço translúcida aurora que ainda assim não consegue
não ser mistério e num impulso magnético de cair: voar!