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As flores de abril

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Nestes tempos cinzas em que vivemos com a nossa frágil (feito bolha de sabão ao vento) democracia sendo golpeada múltiplas vezes, me ponho atenta a colher pequenas sutilezas do universo para me manter de pé (apesar do estado permanente de angústia que toma qualquer um que tenha um mínimo de discernimento da real condição deste país). Feito passarinho que colhe gravetos para construir seu ninho, vou colecionando abraços, olhares, fatos que me fazem ter certeza […]

O suco

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O azedume do limão quase isento de açúcar soava como adorno perfeito para a moça de cachos nos cabelos. Sentada num boteco à beira da calçada, se permitia chorar muito delicadamente, ali na frente daquele lugar onde aparentemente todos eram felizes. Ela apenas dava vazão, deixava escoar aquilo que lhe era demandado, sem receio ou pudor. Aquela naturalidade era encantadora, como se filha das águas fosse. As luzes dos postes lambiam discretamente sua silhueta e […]

A primeira vez que amei

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A primeira vez que amei. A primeira vez que amei talvez tenha sido na tenra (no sentido que conota delicadeza) infância. Havia uma janela e conversávamos longamente (sim, eu e ela: a janela). Tardes inteiras de grandiosas conversas naquele mundo infantil. Talvez houvesse algum dialeto específico, não lembro bem.   Mas ali na sala daquele iluminado apartamento de piso de madeira (amei também este piso de madeira como até hoje amo) aos seis ou sete […]

vida

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Eu tinha uma crônica dormindo acima da minha cabeça. Ela não só dormia, pairava. Ela comia, falava, perguntava as horas (várias vezes ao dia). Era mãe, vó e tia. Ela já com seus oitenta e poucos anos, só tinha suas lembranças e nada mais. Mas por muitas vezes, nem as lembranças ela tinha. O Alzheimer era seu mais fiel companheiro, corroendo seu valioso bem de família: o passado. Mas talvez, apenas talvez ela tenha descoberto […]

segunda-feira de carnaval

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Para Victor  Castelo Branco Dentro daquela casa era só alegria. Confete, serpentina e purpurina já  era a decoração inerente naquele ambiente há mais de um mês onde já se ouvia frevo, maracatu e afoxé desde setembro do ano anterior – afinal, o endereço era: Rua do Amparo, em Olinda. Sua chegada estava prevista para dali a duas semanas, mas parecia que o menino havia resolvido “queimar a largada”, afinal: “carnaval só acaba quando termina” – […]

o bolo

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Ovos de galinha de “capoeira” fresquinhos. Peneira a farinha de trigo com cadenciado bailar de dedos. Uma chuva branca bem fininha deita-se sobre a bacia de bater bolo. Quebra os ovos e com a precisão de um cirurgião, ela separa gemas e claras. Leite, açúcar, frutas e vinho. Tudo no tempo certo e com rigorosa medida. A melhor hora pra ela é a de começar a bater a massa com a colher de pau enquanto […]

a chave

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Pousou a chave prateada delicadamente sobre o móvel de madeira clara, como quem intimamente contempla o seu tilintar adentrando o silencioso apartamento. Tocou com saudoso carinho aquele porta-retratos cuja moldura amarelada insistia em acumular poeira. Avistou brevemente os tímidos sorrisos de outrora que ali havia, questionando-se o quão tarde já estaria partindo. Ajustou seu pulso as alças das suas malas, neste momento as únicas que caminhariam ao seu lado. Como quem se debruça na beira […]