As flores de abril

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crônicas

Nestes tempos cinzas em que vivemos com a nossa frágil (feito bolha de sabão ao vento) democracia sendo golpeada múltiplas vezes, me ponho atenta a colher pequenas sutilezas do universo para me manter de pé (apesar do estado permanente de angústia que toma qualquer um que tenha um mínimo de discernimento da real condição deste país). Feito passarinho que colhe gravetos para construir seu ninho, vou colecionando abraços, olhares, fatos que me fazem ter certeza de estar do lado certo da história e admirar os que sambam do lado de cá cada vez mais.

Quem me conhece um pouco sabe o quanto meu pai sempre foi e é uma fonte inesgotável de admiração e inspiração para mim, em relação a política, ao mundo e sobretudo no amor pelos livros e pela música.     Quando vem até minha casa, costuma passar a vista nos meus livros, sempre localizando algum exemplar que eu tomei emprestado sem pretensão de devolver ao acervo dele, denunciando se tratar de antecipação de herança. Não poderia ser diferente quando dei por mim do tesouro que era sua coleção de vinil, que por sua vez estava órfã de uma radiola. Nada mais justo então que eu trouxesse todos os seus discos pra mim, né?

Dentre eles estava lá aquele vinil bonito de Chico Buarque de 1984, cuja capa toda vermelha sempre me chamara total atenção. Acho que é meu disco preferido dele, visto que tem “Como se fosse a primavera” com Pablo Milanes, bem ali, na primeira faixa do lado B. Desde novinha adorava essa música (com quase trinta acho que já posso usar essa expressão, né?), então fiquei muito feliz quando pude finalmente ouvi-la na gravação original.

“De que calada maneira você chega assim sorrindo

como se fosse a primavera

E eu morrendo

e de que modo sutil

me derramou na camisa todas as flores de abril”

Esse disco por sua vez guarda algo ainda mais especial na sua trajetória. Se você reparar bem, na parte esquerda superior da capa há uma marca. Notoriamente uma marca de fita durex que vencida pelo tempo deixou cair algo pelo caminho. Uma vez meu pai me contou que era um autógrafo de Chico, que meu tio – seu irmão – havia pego numa dada ocasião e colado ali. Achei eu que esse papel havia se perdido totalmente no tempo-espaço, sem qualquer possibilidade de regresso.

O disco de Chico e o autógrafo ali em cima – Clica na foto pra ouvir a música

No dia 5 de Abril, Lula na iminência de ser injustamente preso, uma afronta a nossa inteligência, uma agressão aos nossos ideais, uma verdadeira violência em mais uma estratégia de consolidação de um golpe contra os direitos individuais e coletivos do povo, eu me encontrava desolada e até perdida.

Na ocasião, conversava com amigos sobre como estava aflita em não saber o que fazer, como reagir a tamanha brutalidade que sofríamos e na previsão de sofrermos muito mais… dos privilégios que eu tinha e no quanto pensar a médio prazo nas camadas da sociedade menos favorecidas me afligia.

Édipo, um amigo querido tentava me mostrar que eu não estava de mãos atadas, que a poesia era sim um grito de resistência, que também era caminho. A poesia por si só é ato político como resposta, como rebeldia e indignação. Eu sabia disso, mas me parecia pouco.

Nessa mesma noite, contei a história do autógrafo de Chico, ouvíamos esse mesmo vinil, e quando todos foram embora…me surgiu um papel amarelado pelo tempo no chão da sala. De longe mesmo não tive dúvidas: era o autógrafo, só poderia, como poderia? E era. No dia seguinte, meu tio me contou parte da história que eu não sabia (a melhor parte).

O ano era 1986 (dois anos antes de eu nascer), meu tio Sérgio tinha 16 anos e ainda não podia votar, mas já participava das campanhas políticas e fora num jogo de futebol entre artistas em Jardim Brasil, no campo do Olindão durante a campanha de Arraes para governador. Arraes tinha voltado do exílio e era o candidato da esquerda.  Na ocasião da partida estavam além de Chico: Gonzaguinha, Vinícius Cantuária, Evandro Mesquita, Osmar Prado, Marieta Severo, Mário Lago, Geraldo Azevedo e Alceu Valença (entre outros).

O simbolismo desse pedaço de papel num dia tão histórico, sobretudo pela força do contexto que carrega fora pra mim uma resposta do universo a tudo que eu estava perguntando. Um talismã de esperança, de que o amor e a luta não morrem nunca. Como num portal que se abre, o mundo me dá um afago, sabe? um gesto sutil de que não estamos sós, que somos muitos, e que apesar de toda a injustiça nós estamos muito próximos e somos fortes. Justamente por não sermos um ou dois, somos todos e todas, pois pensamos e queremos o mundo como um lugar bom pra todos. Não há ódio que vença essa força descomunal.

Hoje é 8 de Abril de 2018 e Lula está preso. Na frente da sede da Polícia Federal estão vários artistas e vários movimentos sociais. O endereço está circulando pelas redes: Lula quer receber cartas. Vamos escrever cartas de amor para Lula que tanto nos cuidou com amor. Afinal, há prova de amor maior pelo seu povo do que se privar da sua vida pra cuidar dele? sofrer todo tipo de ódio daqueles que sequer estão preocupados com quem tá do lado de fora do seu carro blindado? pra mim não há altruísmo maior.

“Os poetas repensam a tarefa de pensar o mundo” – é trecho de “poemas aos homens de nosso tempo” de Hilda Hilst que foi mais um graveto de fé onde me agarrei nestes dias, frase que fica martelando minha cabeça, e eu repito baixinho pra mim mesma. A ternura será sempre arma quente (a felicidade também, meu caro Belchior)… e a poesia é a revolução no contrafluxo do desamor.

Hilda Hilst – Poema aos homens do nosso tempo

7 Comments

  1. Mariana Figueiredo says

    Te amo! Obrigada pelo texto! Ele vai ser meu graveto de esperança nos dias cinzentos ❤️

  2. André Felix says

    Lindo que tu perceba a grandeza dessas coisas “pequenas” e mais lindo tua habilidade de compartilhar com tanta graça. :]

  3. JOSENILDO MORAIS DE ARAUJO says

    Como não amar? Digo sempre que Katarine Araújo é a melhor parte de mim. Te amo.

  4. Patrícia says

    O universo nos guia pelo caminho, basta só se ligar. Tenho esse disco também, sem autografo do Chico. Lembro daquele jogo de futebol na época do Arraes. Era um momento de euforia. Naquela época o fluxo era positivo. Seu pai é uma grande figura. Seguimos tentando escutar sempre o universo.

  5. Lucas Pinto says

    Que descrição linda e sensacional!

    Imagino a lombra que foi dar de cara com esse papel!

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