O suco

Leave a comment
crônicas

O azedume do limão quase isento de açúcar soava como adorno perfeito para a moça de cachos nos cabelos.

Sentada num boteco à beira da calçada, se permitia chorar muito delicadamente, ali na frente daquele lugar onde aparentemente todos eram felizes.

Ela apenas dava vazão, deixava escoar aquilo que lhe era demandado, sem receio ou pudor. Aquela naturalidade era encantadora, como se filha das águas fosse.

As luzes dos postes lambiam discretamente sua silhueta e seus gestos. As vestes brancas lhe configuravam serenidade, fluidez.

Deixava vir aquilo que lhe travava o riso, e não se escondia pra isso. Como quem bate no peito em virtude de sua orgulhosa condição humana, chorava como quem ri, como quem fala, como quem se alimenta. Tão somente chorava.
Deixava o rio correr, sem fazer represa no olhar.

A moça, a mesa, a luz, seus trejeitos, as lágrimas lavando as maçãs de seu rosto. E o suco… que a essa altura já se fazia mais azedo que sua mágoa assumidamente lavada.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *