A história da grande história

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crônicas

 

                                                                                                                      Para Lucas Pinto,

                                                           cuja história da história me encantou imensamente.

Dentro da grande história mora uma história que começa em 1992. Mas a história da história toma fôlego e forma com um sonho que aconteceu muito tempo depois.

Inspirava e expirava como quem se desespera, como quem puxa o último gole de oxigênio de sua vida. No tórax, o coração pulsando como cavalo selvagem em terras virgens – totalmente livre e alheio, mas sem rumo – como quem lança bombas de sangue para todo o corpo.

Em dado momento, inspirou. Aguardou de modo inconsciente sua expiração já em desalinho. Mas tal qual quem profundamente mergulha: ela não veio. Como quem bate pernas enquanto se afoga: buscava o ar que lhe faltou. De nada adiantou. Como quem baila no leito de um sopro ou flecha águas frias e turvas: achou que bastava buscar a superfície. Ela não veio.

O chão lhe faltava, as pernas não eram suficientes nem havia qualquer feixe de luz. A história que pariu a grande história toma fôlego e forma num sonho disforme e sem ar. Perturbador sonho que parte o sono como quem tritura quimeras. Devaneios que incendeiam em fogueiras inquisitórias e turvam memórias.

Quando enfim pôde tomar as rédeas do seu fluxo e bebeu novamente do ar que a superfície resguardara abriu os olhos e observou-se como quem se vê de fora. Não era possível mexer braços, pernas, mãos. Apenas suas pálpebras conseguiam movimentar-se: seus cílios lambiam-se ao repouso das íris de maneira vertiginosa.

Ao desgarrar-se do sonho, despertou para a grande história. Refletiu alguns instantes e começou a contá-la como quem vomita palavras ou como quem apenas transcreve um recado, como quem já sabe exatamente onde tudo começa e termina.

Dezoito meses durante as madrugadas escreveu incessantemente para contar a grande história, e todos os dias um novo portal se abria. A grande história nascida de um sonho que dizia tudo através das místicas metáforas do suspiro mais profundo da mente inerte.

Mergulhou nas águas obscuras do pensamento – sem controle, sem governo – e fugiu como bruxas correm de fogueiras, como felinos sagrados outrora profanados. Atravessou continentes a nado, percorreu ruas, becos e cemitérios. Visitou o mais oculto dos sentimentos e desenhou nas mãos de ciganas e Deusas rotas de fuga e destinos. Lançou punhais de prata delineados com pontas de pedra fria calcificadas com mortal veneno.

Correu não como quem foge para procurar abrigo, mas como quem escreve para ficar, como se sua vida dependesse daquilo. A Grande história não tinha um fim, e precisava ser contada. Acordou. Abriu os olhos, não se viu. Perdeu-se de si como quem perde uma paisagem na desmemória. A realidade apartada bebeu em grandes goles e tomou a golpes de faca sua toada. Mas a história não fugiu nas crinas do cavalo, ela escorreu dentre os dedos das mãos de quem as escreveu, como quem queima folha por folha, como quem derrete vela acesa. Como quem mastiga nuvens de algodão.

A grande história partiu sem rastro nem perdão. Mas não se findou ou desfez, pois uma vez dita a palavra toma vida, ganha o mundo, e alimenta outros universos astrais. Uma história contada, ainda que nunca (ou quase nunca) lida ou tocada, ainda é e sempre será uma história gestada, parida e viva. Pernas pro mundo tomou a grandiosa história que hoje habita e alimenta outras almas, outros sonhos e mantém acesas chamas de outras fogueiras. Sem nunca ter fim.

 

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