vida

Leave a comment
crônicas

Eu tinha uma crônica dormindo acima da minha cabeça. Ela não só dormia, pairava. Ela comia, falava, perguntava as horas (várias vezes ao dia). Era mãe, vó e tia. Ela já com seus oitenta e poucos anos, só tinha suas lembranças e nada mais. Mas por muitas vezes, nem as lembranças ela tinha.

O Alzheimer era seu mais fiel companheiro, corroendo seu valioso bem de família: o passado. Mas talvez, apenas talvez ela tenha descoberto o amor fraterno há tão pouco tempo quanto eu descobrira que sim, havia uma crônica acima da minha cabeça, dormindo e acordando todos os dias.

Sua “cuidadora” chegava sempre pontualmente, às sete da manhã. A casa era simples, de família humilde. A senhora Dona Maria não tinha lá muita atenção dos filhos e netos, faltava também paciência que era consumida pelo esquecimento e pela rotina que devorava qualquer possibilidade de carinho entre os que dividiam a casa com sua ausente presença.

Mas Ana chegava gritando na janela “cheguei, vida!” e entrava, oferecendo-lhe suco, fruta, lhe dando banho, falando do almoço. Elogiava-lhe sempre, “a senhora é tão bonita! tá nessa janela paquerando, né?” pintava seus cabelos e unhas, passava batom, jogava dominó, passeava na praça. Cuidava de Dona Maria não como uma enfermeira ou babá, mas como uma filha: de todo o seu coração. Ao fim do dia ao ir embora dizia: “tchau, meu amor”, num tom honesto de quem já espreita a saudade.

Na sexta-feira se despedia contando as horas pra segunda-feira chegar, pois Ana era sozinha. Não saía, não tinha amigos, filhos ou namorava. Então ficava ansiosa pra gritar na janela: “cheguei, vida!” E encher tudo de vida, de cor e amor. Ana era a vida dos últimos fios de vida de Dona Maria. Dona Maria era a vida dos dias de Ana.

A vida e o amor muitas vezes demoram uns anos pra chegar. Nem tudo é por dinheiro, nem toda relação é impaciente e superficial. Os encontros, todos tem uma razão de ser. As últimas lembranças que Maria conseguir apreender – talvez não na mente, mas na alma – serão sim, repletas de um cuidado cheio de um genuíno afeto. Família é onde existe amor.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *