segunda-feira de carnaval

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crônicas

Para Victor  Castelo Branco

Dentro daquela casa era só alegria. Confete, serpentina e purpurina já  era a decoração inerente naquele ambiente há mais de um mês onde já se ouvia frevo, maracatu e afoxé desde setembro do ano anterior – afinal, o endereço era: Rua do Amparo, em Olinda.

Sua chegada estava prevista para dali a duas semanas, mas parecia que o menino havia resolvido “queimar a largada”, afinal: “carnaval só acaba quando termina” – e diziam à boca miúda que a quarta-feira de cinzas era um dos melhores dias de folia. Ele naturalmente não queria perder essa oportunidade de estrear na vida bem ali no ventre da melhor festa do ano e no melhor lugar do mundo (e se não for eu cegue).

No alto das sete colinas, os clarins de Momo anunciavam sua chegada: nasceu o menino na segunda-feira de carnaval! Quem faz ideia do que isso significa imagina a bela confusão que foi um parto domiciliar no foco da folia, entre uma contração e outra, uns passos de frevo, muitas tubas e tome mais confete e serpentina em meio a naturais gritos de dor, mas repleto de muitos e muitos sorrisos que só a libertação dos dias de festa da carne pode proporcionar aos seres pagãos desta terra.

Sua mãe vestida de havaiana, seu pai ostentava um tapa-olho de pirata. Aquele lar era naturalmente só alegria, sua chegada era tão esperada que não pudesse haver melhores motivos para comemorar. Chuva, suor e cerveja! Corre pra lá, corre pra cá, olha o boneco gigante! Olha a tesoura! “Que venha com saúde, que chegue em paz, que venha com axé”- diziam. E o menino nasceu com fome de tudo: se alimentando logo de amor, cor, sabor e liberdade.

Em meio a tanta euforia logo lhe puseram uma fantasia de arlequim, pronto: chegado ao mundo preparado pra inaugurar a vida extrauterina, parecia até que veio de sombrinha na mão! Agora há que se perdoar, no meio de tanto acontecimento – carnaval pra Olindense é coisa séria tanto quanto nascimento – ninguém se lembrou de anotar dia e hora do seu surgimento.

Hoje, quando lhe indagam: “moço, qual o dia de seu aniversário?” ele simplesmente responde: “segunda-feira de carnaval”. Mas tudo bem, pois todos os anos ele ganha de presente a maior festa do mundo, com alguns milhões de convidados, algumas centenas de troças bem debaixo de sua janela, um bocado de orquestra de frevo, e certamente: os mais sinceros e queridos abraços de uma efusiva felicidade que não se contextualiza, nem se explica: só vivendo pra ver. Vida a longa ao menino do carnaval!

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