o bolo

crônicas

Ovos de galinha de “capoeira” fresquinhos. Peneira a farinha de trigo com cadenciado bailar de dedos. Uma chuva branca bem fininha deita-se sobre a bacia de bater bolo. Quebra os ovos e com a precisão de um cirurgião, ela separa gemas e claras. Leite, açúcar, frutas e vinho. Tudo no tempo certo e com rigorosa medida.

A melhor hora pra ela é a de começar a bater a massa com a colher de pau enquanto cantarola seu repertório de hinos evangélicos favoritos, assim como numa meditação. O calor na temperatura ideal, tudo muito cuidadosamente executado. De repente, o aroma gostoso toma todos os cômodos da casa para seu deleite, deleitando também suas lembranças mais juvenis.

Qualquer festa de família em qualquer época do ano pra ela é motivo pra bolo de noiva. Solteira, cinquenta e poucos anos, ainda mora com sua mãe. Mesmo sem nunca vestir véu e carregar buquê, era a solteira do bolo de noiva.

Não se sabe se pelo doce, se pela alquimia ou aroma da mistura dos ingredientes. Talvez seja pela imagem do semblante dos seus entes queridos deliciando-se com sua receita quase sagrada. Talvez esses sejam os únicos momentos em que ela se sinta genuinamente especial e única.

Uma vida inteira sem um grande amor, um sonho branco de tranças nos cabelos guardado a sete chaves (tal qual a receita do quitute). A mulher do bolo de noiva nunca casou. Talvez o bolo guarde consigo a esperança de um dia encontrar seu par. Ou talvez seja ela o seu doce par.