a chave

crônicas

Pousou a chave prateada delicadamente sobre o móvel de madeira clara, como quem intimamente contempla o seu tilintar adentrando o silencioso apartamento. Tocou com saudoso carinho aquele porta-retratos cuja moldura amarelada insistia em acumular poeira. Avistou brevemente os tímidos sorrisos de outrora que ali havia, questionando-se o quão tarde já estaria partindo.

Ajustou seu pulso as alças das suas malas, neste momento as únicas que caminhariam ao seu lado. Como quem se debruça na beira de um abismo, o jovem senhor de cabelos prateados fecha a porta do apartamento – sem trancá-la.

Após vinte e cinco anos reiterando o ritual, ela abre a porta no mesmo horário que sempre fizera nos últimos tempos. Era preciso correr para cozinha, pois a sopa estava a demandar seu preparo. Banhou-se de modo breve e pôs um delicado vestido de cores neutras e comprimento longo. Debruçou-se sobre a pia da cozinha onde postos já estavam os legumes coloridos, enquanto borbulhas se desenhavam na chaleira sendo o prenúncio de um quente e amargo café. Nesta noite ainda mais amargo café.

Seis e meia no relógio da sala cheia. Cheia de móveis. Repleta de lembranças e de um silêncio ensurdecedor. Um silêncio cheio de vazio e melancolia, mas um vazio que não doía. A mesa posta, a sopa esfria. Ele nunca se atrasara um minuto sequer. Vinte e cinco anos e esfria também sua espinha.

A luz do abajur piscou. Talvez tenha queimado. Ela levanta-se para verificar, e então avista algo brilhando na penumbra, havia algo ali naquele móvel de madeira clara. Eram as chaves. As chaves. Abaixo delas, apenas um bilhete: “deixe-me ir, preciso andar”. Ao lado, aquele vinil de Cartola que ela mesma o havia presenteado em outros tempos, talvez fosse contemporâneo aos tímidos sorrisos do retrato.

Um adeus. Vinte e cinco anos. Uma linha. Uma música. Ele partira para sempre levando tudo que ela conhecia. Partira somente levando seus objetos mais pessoais. Partira deixando as chaves. As chaves que abririam as portas da sua percepção.