para o que nasce

visceral

Descobristes um desejo azul
num jardim de girassóis
e um caminho de flamboyants sangrentos
que na verdade sempre viveram dentro de ti.

Descobristes um poeta:
(Ernesto, Pablo ou Affonso)
de palavras vivas!
que dependem só de si para vibrarem
num papel amassado
ou num livro de capa dura dourado
que sempre viveram dentro de ti.

Fostes também mulher:
Inês, Íris, Lia, Madalena,
todas elas de canto doce
de doce encanto
fortes tal qual Rosário
livres tal Frida Kahlo,
amantes líricas, Florbela…!
Todas aí, dentro desse sangue
nessas veias
nestes olhos
nesses braços e abraços.

Sempre esteve a sua janela
um pássaro a bater todas as manhãs
e porque não me dizes a que veio, perguntavas…
e o porque, eu vos digo:
porque a resposta sempre morou em ti.
Olhe pra dentro, poeta!
para de esperar
o dia de ser
porque já és poeta a pulsar
porque poeta já nasce imortal, forte,
insano no amor, bravo no viver, e faz do seu ofício sonhar.

Vive a vida de todos os seres que lhe encantam, poeta
todos eles juntos num só ser.
Outras quais, inventas, poeta!
Involuntariamente, incessantemente, porque de outro modo
[o poeta não sabe ser.