faca

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quem
te disse
que tua tesoura
teria força
suficiente
para cortar
a leveza de minhas asas?
.
você não sabe
quantas mil
quantas mil vezes
me despedacei
feito pedra de gelo ao sol
e me refiz
feito maré
que sobe
ao sabor do vento
.
simplesmente
para ser quem sou
para planar
o voo da minha história
para ter
as rédeas do meu umbigo
.
você não sabe
quantos espinhos toquei
quantas lágrimas sequei
pra ter o mero prazer
de amar quem me tornei
custando o quanto fosse
pra ser assumidamente quem sou
.
não abrirei mão
de um passo à frente que seja
retroceder
é me desfazer de mim
.
então que seja
um caminho de solitude
ou de solidão
mas que seja
o caminho que escolhi
só por ser
exatamente aquilo que
luto todos os dias pra ser.

abissal

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coracional

Das belezas óbvias
É sabido:
Nos cabe o contentamento
De contemplar
Até o fôlego nos faltar

Das belezas não óbvias
Destas nos cabem
O precioso cuidado
De buscar a jóia perdida
A pérola em ostra dormida

Do sol nascendo
Da Lua cheia
Do mar e da cachoeira
É cabido o mergulho do olhar
A falta do ar
A fotografia

Mas há beleza na trincheira
No olho do furacão
Na fúria do cotidiano
Na alma vazia

Qual a matéria prima da poesia?
As palavras
Qualquer um diria
Mas palavra é beleza óbvia

A poesia não exige
Letramento qualquer
A poesia só exige
O desdobramento do olhar

Que faz ver
E enxergar
Não só a beleza da flor em riste
Mas da essência terra fecunda
De onde tudo brota
e que a tudo inunda

instante

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coracional

Só neste precioso
Preciso e exato instante
Três poesias se perderam
Aqui mesmo
dentro
de mim

Me vieram à mente
Poesias esparsas
Mas que minhas mãos
Não acompanharam
a velocidade das palavras
E o atropelo dos meus pensamentos

Toda poesia é urgente
Toda ela tem pressa
E precisa ser bebida com sede
Ser tomada a grandes goles
Ser cuspida de uma só vez

A poesia não perdoa
Não pede nem espera
Tão somente adentra
Muito senhora de si
Todo e qualquer recinto
Metendo pés em portas
Não se cala
Nem consente
.
Alguns livros são
necessários
Para tais pessoas
Em dados momentos
Assim como a palavra
É necessário encaixe
Diante
De algum sentimento

Mola propulsora
Daquilo que inquieta
Fustiga
Ironia é roupa para palavras
Feliz de quem se agonia
E diz

É preciso dizer palavra
Desatar nós
Enfeitar laços
Só dizendo
Dizendo palavra.

milagres

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coracional

no amor
assim como nos
encontros
entramos uns
saímos outros

o mar nunca é o mesmo
no entanto permanece igual

aquele mesmo mar daquele mesmo jeito
com aquelas mesmas pedras lambidas pelo mesmo sol

por mais que se busque
tensionando recentes
memórias
(aleatoriedades transitórias)
jamais serão os mesmos

assim como
aquele casal de .passarinhos.
que permanecendo os .mesmos.
jamais serão igUaiS

enquanto o sol rompe o véu
feitiço de engolirnoites inaugurando dias
sob as mesmas peles
que o mar salgou
e que noutras peles também
.mergulharam.

para além do ventre puro das memórias
jamais haverá
o mesmo mar
jamais serão
as mesmas peles
tingidas pelo mesmo sol

Amanhecer na jóia perdida

Praia dos Milagres, Olinda-PE

A história da grande história

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crônicas

 

                                                                                                                      Para Lucas,

                                                           cuja história da história me encantou imensamente.

Dentro da grande história mora uma história que começa em 1992. Mas a história da história toma fôlego e forma com um sonho que aconteceu muito tempo depois.

Inspirava e expirava como quem se desespera, como quem puxa o último gole de oxigênio de sua vida. No tórax, o coração pulsando como cavalo selvagem em terras virgens – totalmente livre e alheio, mas sem rumo – como quem lança bombas de sangue para todo o corpo.

Em dado momento, inspirou. Aguardou de modo inconsciente sua expiração já em desalinho. Mas tal qual quem profundamente mergulha: ela não veio. Como quem bate pernas enquanto se afoga: buscava o ar que lhe faltou. De nada adiantou. Como quem baila no leito de um sopro ou flecha águas frias e turvas: achou que bastava buscar a superfície. Ela não veio.

O chão lhe faltava, as pernas não eram suficientes nem havia qualquer feixe de luz. A história que pariu a grande história toma fôlego e forma num sonho disforme e sem ar. Perturbador sonho que parte o sono como quem tritura quimeras. Devaneios que incendeiam em fogueiras inquisitórias e turvam memórias.

Quando enfim pôde tomar as rédeas do seu fluxo e bebeu novamente do ar que a superfície resguardara abriu os olhos e observou-se como quem se vê de fora. Não era possível mexer braços, pernas, mãos. Apenas suas pálpebras conseguiam movimentar-se: seus cílios lambiam-se ao repouso das íris de maneira vertiginosa.

Ao desgarrar-se do sonho, despertou para a grande história. Refletiu alguns instantes e começou a contá-la como quem vomita palavras ou como quem apenas transcreve um recado, como quem já sabe exatamente onde tudo começa e termina.

Dezoito meses durante as madrugadas escreveu incessantemente para contar a grande história, e todos os dias um novo portal se abria. A grande história nascida de um sonho que dizia tudo através das místicas metáforas do suspiro mais profundo da mente inerte.

Mergulhou nas águas obscuras do pensamento – sem controle, sem governo – e fugiu como bruxas correm de fogueiras, como felinos sagrados outrora profanados. Atravessou continentes a nado, percorreu ruas, becos e cemitérios. Visitou o mais oculto dos sentimentos e desenhou nas mãos de ciganas e Deusas rotas de fuga e destinos. Lançou punhais de prata delineados com pontas de pedra fria calcificadas com mortal veneno.

Correu não como quem foge para procurar abrigo, mas como quem escreve para ficar, como se sua vida dependesse daquilo. A Grande história não tinha um fim, e precisava ser contada. Acordou. Abriu os olhos, não se viu. Perdeu-se de si como quem perde uma paisagem na desmemória. A realidade apartada bebeu em grandes goles e tomou a golpes de faca sua toada. Mas a história não fugiu nas crinas do cavalo, ela escorreu dentre os dedos das mãos de quem as escreveu, como quem queima folha por folha, como quem derrete vela acesa. Como quem mastiga nuvens de algodão.

A grande história partiu sem rastro nem perdão. Mas não se findou ou desfez, pois uma vez dita a palavra toma vida, ganha o mundo, e alimenta outros universos astrais. Uma história contada, ainda que nunca (ou quase nunca) lida ou tocada, ainda é e sempre será uma história gestada, parida e viva. Pernas pro mundo tomou a grandiosa história que hoje habita e alimenta outras almas, outros sonhos e mantém acesas chamas de outras fogueiras. Sem nunca ter fim.

 

A primeira vez que amei

comment 1
crônicas
A primeira vez que amei. A primeira vez que amei talvez tenha sido na tenra (no sentido que conota delicadeza) infância. Havia uma janela e conversávamos longamente (sim, eu e ela: a janela). Tardes inteiras de grandiosas conversas naquele mundo infantil. Talvez houvesse algum dialeto específico, não lembro bem.
 
Mas ali na sala daquele iluminado apartamento de piso de madeira (amei também este piso de madeira como até hoje amo) aos seis ou sete anos comecei a montar livros feitos em papel ofício e coloridos um a um com hidrocor (cores fortes, sempre). Não lembro bem mas sei que foram dez. O décimo, claro, tinha a capa dourada e era uma edição especial (limitadíssima).
 
Amei todos os livros que meu pai trazia de sebos ou de livrarias. Todos os livros e todas as belezas que este gesto carregava consigo. Muitas vezes, confesso, mais que aos livros dediquei amor a este gesto de meu pai ao qual sou tão grata.
 
Teve também o amor ao quadro negro e a caixa de giz. Achei que seria professora (paciência me faltaria certamente).
 
A segunda vez que amei. A segunda vez que amei, custou a ser amor. Aliás, custoso foi o tempo que levei a perceber que amor não é sobre encantações tão somente.
 
Amei o pé de pitomba. Ou a pitombeira do quintal de minha mãe. Antes de ser o quintal de minha mãe, já era o quintal do pé de pitomba. Havia um de cada lado do muro, separados porém juntos, apartados porém entrelaçados. Nessa época eu entendia o amor como algo que toma posse, não sabia nada sobre ele, portanto. Como continuo não sabendo. Amava a sombra que fazia nas tardes quentes, amava as folhas que caíam forrando o chão, também a chuva transpassando seus galhos no inverno. Amei intensamente.
 
Amei como manda o amor: toda a lama e toda fúria, do qual se nasce a lótus perdida. De todo o coração Seja no amor odioso, seja no amor da revolução, no amor da paixão. Simplesmente foi sendo assim a cada descoberta.
 
A sombra que fazia. O cheiro da flor que parecia até jasmim. A morada dos pássaros. A maternidade dos pássaros. A morte de algumas pipas.
Acho que poucas pessoas estão atentas a lançar um olhar de admiração sobre um pé de fruta tão excêntrico, de fruta excêntrica, tem que olhar com admirável cautela, tem que ir de peito aberto. A pitombeira possui uma beleza simples, honesta, não é suntuosa, tem galhos até finos, tronco esguio, folhas pequenas, fruta besta. Mas todos os anos, ao chegar dezembro ela perde tudo, toda sua pele, se esvazia de si. Fica completamente nua, as folhas secas vão forrando a terra que lhe nutriu. Se engana quem pensa que ela morreu. Uma semana, em uma semana ela está irreconhecível repleta de folhas novas e cheirando bem, um cheiro que vai invadindo, tomando tudo sem pedir qualquer licença.
 
Em seguida vem os frutos, é um longo ano. Até desfolhar, até renascer. Todos os anos. As árvores têm muito a nos ensinar.

A Grande Beleza

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crônicas
Viver é uma beleza que dói. Dessas que de tamanha magnitude, saltam aos olhos e laceram o coração. Dessas grandes belezas que nos causam uma espécie de aflição por não conseguir dar conta de devorar com os olhos, feito paisagem exuberante e passageira. Mas a vida pede, requer e solicita sem gentilezas: coragem! É necessário o mergulho de cabeça, bem de lá do alto. Não há garantias.
(…)
Respirava em sono profundo. Em dado momento, inspirou. Quem ao seu lado dormia, aguardava de modo inconsciente – automático e previsível – a sua expiração já compassada. Mas tal qual quem profundamente mergulha: ela não veio. Como quem bate pernas enquanto se afoga: buscava o ar que lhe faltou.
(De nada adiantou)
Como quem baila no leito de um sopro ou flecha águas frias e turvas: notou que bastava tocar os pés no chão. Já não era necessário respirar. Somos uma curva numa longa estrada. (A vida? Um sopro. E nós? Como disse Eduardo Galeano: “um mar de fogueirinhas”).

pra quem consegue olhar

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coracional

Onda do mar
Sob sol das cinco e meia da manhã
Esquenta e salga as pernas
De quem transita em sua margem linear

O sopro verde da hortelã
Refrescante feito colírio
Em iris resseca
Ou chuva em piso rachado
(Que faz subir aquela quase invisível poeira)

Dente cravado
Em pele de fruta tropical
Açucara
Feito flor de Açucena
Acenando aos olhos de quem está atento
Diante das pequenas sutilezas

Abraço que é também mergulho
Bordado de coisa rara
Feito linhas o sorriso
Que mora entre maçãs

O tom laranja
Rasgando o céu
Rompendo o dia
Também é lar
É ombro abrigo.

Pra quem consegue olhar
E ver.

verter

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aprendizagens

teu maior defeito foi – ao teu ver –
não verter qualquer defeito
foi permanecer estancado
sentado apalpando tua razão
.
tua maior mentira
foi estar sempre coberto
da tua intransigente verdade
que só revela tua própria vaidade
.
o teu discurso é falho
falido
e por ser pouco polido
aos berros e gritos
envenena tuas veias
engasgando teu perdão
.
o que ganhas com tanta verdade
pouco defeito
muita razão?
.
os gestos de tua beligerante língua
deleitam teu ego
cobrindo-te de orgulho
secando-te por dentro
feito galho no verão
.
e apesar de tão sábio
não sabes que:
o maior defeito
e a pior mentira
do dono da verdade e da razão
é cegar-se nestas
distribuindo cicatrizes funestas
esquecendo que tudo é relativo
e varia em cada ponto de vista
mudando a cada estação.

gume

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coracional

O ciúme dói
feito alicate arrancando dente
feito alfinete invadindo o dedo
feito pavio queimando a pele fria
enchendo de sangue “os zói”

O ciúme esfria a espinha
e corrói a sanidade
embrulha o estômago
feito presente de grego
e o entrega de bandeja
à senhora Dona Vaidade
que perde o prumo, o destino e a linha

O ciúme amarga a boca
e a enche de palavras fustigadas
por um copo de cólera
e conscientemente
machuca e fere
aquele que sente
deixando a alma oca

O ciúme bota o amor pra correr
e este foge ferido, tolhido
foge pulando o muro
foge batendo o portão
o ciúme só encontra o próprio umbigo
desencontrando o amor do próprio amor
que convalescido e machucado
termina por padecer