A primeira vez que amei

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crônicas
A primeira vez que amei. A primeira vez que amei talvez tenha sido na tenra (no sentido que conota delicadeza) infância. Havia uma janela e conversávamos longamente (sim, eu e ela: a janela). Tardes inteiras de grandiosas conversas naquele mundo infantil. Talvez houvesse algum dialeto específico, não lembro bem.
 
Mas ali na sala daquele iluminado apartamento de piso de madeira (amei também este piso de madeira como até hoje amo) aos seis ou sete anos comecei a montar livros feitos em papel ofício e coloridos um a um com hidrocor (cores fortes, sempre). Não lembro bem mas sei que foram dez. O décimo, claro, tinha a capa dourada e era uma edição especial (limitadíssima).
 
Amei todos os livros que meu pai trazia de sebos ou de livrarias. Todos os livros e todas as belezas que este gesto carregava consigo. Muitas vezes, confesso, mais que aos livros dediquei amor a este gesto de meu pai ao qual sou tão grata.
 
Teve também o amor ao quadro negro e a caixa de giz. Achei que seria professora (paciência me faltaria certamente).
 
A segunda vez que amei. A segunda vez que amei, custou a ser amor. Aliás, custoso foi o tempo que levei a perceber que amor não é sobre encantações tão somente.
 
Amei o pé de pitomba. Ou a pitombeira do quintal de minha mãe. Antes de ser o quintal de minha mãe, já era o quintal do pé de pitomba. Havia um de cada lado do muro, separados porém juntos, apartados porém entrelaçados. Nessa época eu entendia o amor como algo que toma posse, não sabia nada sobre ele, portanto. Como continuo não sabendo. Amava a sombra que fazia nas tardes quentes, amava as folhas que caíam forrando o chão, também a chuva transpassando seus galhos no inverno. Amei intensamente.
 
Amei como manda o amor: toda a lama e toda fúria, do qual se nasce a lótus perdida. De todo o coração Seja no amor odioso, seja no amor da revolução, no amor da paixão. Simplesmente foi sendo assim a cada descoberta.
 
A sombra que fazia. O cheiro da flor que parecia até jasmim. A morada dos pássaros. A maternidade dos pássaros. A morte de algumas pipas.
Acho que poucas pessoas estão atentas a lançar um olhar de admiração sobre um pé de fruta tão excêntrico, de fruta excêntrica, tem que olhar com admirável cautela, tem que ir de peito aberto. A pitombeira possui uma beleza simples, honesta, não é suntuosa, tem galhos até finos, tronco esguio, folhas pequenas, fruta besta. Mas todos os anos, ao chegar dezembro ela perde tudo, toda sua pele, se esvazia de si. Fica completamente nua, as folhas secas vão forrando a terra que lhe nutriu. Se engana quem pensa que ela morreu. Uma semana, em uma semana ela está irreconhecível repleta de folhas novas e cheirando bem, um cheiro que vai invadindo, tomando tudo sem pedir qualquer licença.
 
Em seguida vem os frutos, é um longo ano. Até desfolhar, até renascer. Todos os anos. As árvores têm muito a nos ensinar.

A Grande Beleza

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crônicas
Viver é uma beleza que dói. Dessas que de tamanha magnitude, saltam aos olhos e laceram o coração. Dessas grandes belezas que nos causam uma espécie de aflição por não conseguir dar conta de devorar com os olhos, feito paisagem exuberante e passageira. Mas a vida pede, requer e solicita sem gentilezas: coragem! É necessário o mergulho de cabeça, bem de lá do alto. Não há garantias.
(…)
Respirava em sono profundo. Em dado momento, inspirou. Quem ao seu lado dormia, aguardava de modo inconsciente – automático e previsível – a sua expiração já compassada. Mas tal qual quem profundamente mergulha: ela não veio. Como quem bate pernas enquanto se afoga: buscava o ar que lhe faltou.
(De nada adiantou)
Como quem baila no leito de um sopro ou flecha águas frias e turvas: notou que bastava tocar os pés no chão. Já não era necessário respirar. Somos uma curva numa longa estrada. (A vida? Um sopro. E nós? Como disse Eduardo Galeano: “um mar de fogueirinhas”).

pra quem consegue olhar

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coracional

Onda do mar
Sob sol das cinco e meia da manhã
Esquenta e salga as pernas
De quem transita em sua margem linear

O sopro verde da hortelã
Refrescante feito colírio
Em iris resseca
Ou chuva em piso rachado
(Que faz subir aquela quase invisível poeira)

Dente cravado
Em pele de fruta tropical
Açucara
Feito flor de Açucena
Acenando aos olhos de quem está atento
Diante das pequenas sutilezas

Abraço que é também mergulho
Bordado de coisa rara
Feito linhas o sorriso
Que mora entre maçãs

O tom laranja
Rasgando o céu
Rompendo o dia
Também é lar
É ombro abrigo.

Pra quem consegue olhar
E ver.

verter

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aprendizagens

teu maior defeito foi – ao teu ver –
não verter qualquer defeito
foi permanecer estancado
sentado apalpando tua razão
.
tua maior mentira
foi estar sempre coberto
da tua intransigente verdade
que só revela tua própria vaidade
.
o teu discurso é falho
falido
e por ser pouco polido
aos berros e gritos
envenena tuas veias
engasgando teu perdão
.
o que ganhas com tanta verdade
pouco defeito
muita razão?
.
os gestos de tua beligerante língua
deleitam teu ego
cobrindo-te de orgulho
secando-te por dentro
feito galho no verão
.
e apesar de tão sábio
não sabes que:
o maior defeito
e a pior mentira
do dono da verdade e da razão
é cegar-se nestas
distribuindo cicatrizes funestas
esquecendo que tudo é relativo
e varia em cada ponto de vista
mudando a cada estação.

gume

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coracional

O ciúme dói
feito alicate arrancando dente
feito alfinete invadindo o dedo
feito pavio queimando a pele fria
enchendo de sangue “os zói”

O ciúme esfria a espinha
e corrói a sanidade
embrulha o estômago
feito presente de grego
e o entrega de bandeja
à senhora Dona Vaidade
que perde o prumo, o destino e a linha

O ciúme amarga a boca
e a enche de palavras fustigadas
por um copo de cólera
e conscientemente
machuca e fere
aquele que sente
deixando a alma oca

O ciúme bota o amor pra correr
e este foge ferido, tolhido
foge pulando o muro
foge batendo o portão
o ciúme só encontra o próprio umbigo
desencontrando o amor do próprio amor
que convalescido e machucado
termina por padecer

coletivo coração

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coracional

 

Para Rodrigo Édipo

O teu olhar flecha
Corta
Penetra
O vidro da janela
Do coletivo em condução.

O teu olhar parte
Atravessa a ponte
Sendo elo de ligação
Entra a cidade em chamas
E teu suburbano coração.

O teu olhar cruza
O sinal vermelho em brasa
Feito sangue nas veias
Onde parar
Desacelerar
Ou respirar
É verdadeira transgressão.

Teu pensamento permeia
Sobre vias e travessias
Ao passo que
Segue na contramão
Do fluxo da metropolitana região.

emergir

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coracional

As minhas palavras vão me cortando,
Penetrando transgredindo
E tomando tudo, invadindo tudo.
As minhas palavras
São a barragem estourando
Inundando toda a cidade.
Essa cidade que já nem existe mais aos teus olhos
Essa terra que submergiu toda de uma só vez.
Inclusive, não me importa se te agrada o que eu digo.
Não é desdém, simplesmente não me importa.
Não é por você, nem por ninguém.
Sempre foi por mim.
As minhas palavras são navalhas
E minha língua é afiada e contundente,
Minha palavra é instrumento perfuro-cortante.
Mas não se engane: quando fogem ou calam
Minhas palavras são veneno de poder ainda mais devastador,
Corroendo tudo que é vivo por dentro .
Esse hiato faz morada num peito transbordando o que dizer,
O que gritar.
Minhas palavras pedem bússola,
Balsa,
Margem,
Pedem terra firme,
Pedem cais.
Mas ora se não é de dentro do olho do furacão
Que a vida se renova,
Que renasce e se refaz?
Aos poucos minhas palavras vão tomando tudo
Vão invadindo tudo
E haja pé na porta
E haja ter o que e gritar
Num movimento de palavras livres
Que flutuavam bem aqui na minha testa
E eu não as conseguia tocá-las.
Minhas palavras cortam, mas não ferem.
Se eu as digo: minhas palavras curam.
São minha própria cura,
Meu veneno e meu antídoto,
Minha sanidade, minha loucura,
Meu querer bem e minha ternura.

vida

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crônicas

Eu tinha uma crônica dormindo acima da minha cabeça. Ela não só dormia, pairava. Ela comia, falava, perguntava as horas (várias vezes ao dia). Era mãe, vó e tia. Ela já com seus oitenta e poucos anos, só tinha suas lembranças e nada mais. Mas por muitas vezes, nem as lembranças ela tinha.

O Alzheimer era seu mais fiel companheiro, corroendo seu valioso bem de família: o passado. Mas talvez, apenas talvez ela tenha descoberto o amor fraterno há tão pouco tempo quanto eu descobrira que sim, havia uma crônica acima da minha cabeça, dormindo e acordando todos os dias.

Sua “cuidadora” chegava sempre pontualmente, às sete da manhã. A casa era simples, de família humilde. A senhora Dona Maria não tinha lá muita atenção dos filhos e netos, faltava também paciência que era consumida pelo esquecimento e pela rotina que devorava qualquer possibilidade de carinho entre os que dividiam a casa com sua ausente presença.

Mas Ana chegava gritando na janela “cheguei, vida!” e entrava, oferecendo-lhe suco, fruta, lhe dando banho, falando do almoço. Elogiava-lhe sempre, “a senhora é tão bonita! tá nessa janela paquerando, né?” pintava seus cabelos e unhas, passava batom, jogava dominó, passeava na praça. Cuidava de Dona Maria não como uma enfermeira ou babá, mas como uma filha: de todo o seu coração. Ao fim do dia ao ir embora dizia: “tchau, meu amor”, num tom honesto de quem já espreita a saudade.

Na sexta-feira se despedia contando as horas pra segunda-feira chegar, pois Ana era sozinha. Não saía, não tinha amigos, filhos ou namorava. Então ficava ansiosa pra gritar na janela: “cheguei, vida!” E encher tudo de vida, de cor e amor. Ana era a vida dos últimos fios de vida de Dona Maria. Dona Maria era a vida dos dias de Ana.

A vida e o amor muitas vezes demoram uns anos pra chegar. Nem tudo é por dinheiro, nem toda relação é impaciente e superficial. Os encontros, todos tem uma razão de ser. As últimas lembranças que Maria conseguir apreender – talvez não na mente, mas na alma – serão sim, repletas de um cuidado cheio de um genuíno afeto. Família é onde existe amor.

ponto

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coracional

Eu quero bordar minha alma
Quero tecer cada fio
cada linha
cada contorno eu quero bordar de poesia.

Eu quero riscar a minha pele
Cada cicatriz e passo
Toda textura
Eu quero desenhar de poesia.

Eu quero que o fio da navalha
Que a face fria da tesoura toca
Faça de minha alma moldura
Retrato pleno e sereno de poesia.

Eu quero criar uma melodia
Um canto e encanto
Que seja sopro e ritmo
Da dança cósmica e transcendental
Da poesia.

aprendizagens III

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aprendizagens

Faca nos dentes
sangue nos olhos
veias quentes
um abraço ardente:
e está feita uma pequena grande revolução.
Qual o teu extenso lugar no mundo
onde descansa sorrateiramente teu grandioso ego?
que te infla,
te enche,
e te deixa só
mas tão só que nem contigo estás
faca nos olhos
sangue nos dentes.
Abraça teus demônios
os põe no colo,
olha-os nos olhos
e com profundo destemor
canta uma canção
cheia de cuidado
e entre ventres
os coloca pra dormir
em sono tão profundo
que as lágrimas de sangue secarão
e as facas luminosas cegarão.